Janeiro 31, 2011


NOVO OLHAR
A artista plástica Soraya Lucato executa postura de hatha ioga. Com as aulas, ela percebeu que tinha de parar de fumar e mudar de emprego

No século passado a prática de ioga oscilou entre dois extremos – o da alma, na forma de uma religião ou filosofia, e o do corpo, como um exercício físico puro e simples. Nas décadas de 1960 e 1970, marcadas pela cultura hippie, o pêndulo oscilou para o lado da alma. Ioga era coisa de bicho-grilo, de quem queria atingir outros níveis de consciência ou curtir uma viagem espiritual. O entusiasmo de ídolos como os Beatles ajudou a reforçar o aspecto transcendental, fiel às origens indianas. A banda britânica adotou como guru o indiano Maharishi Mahesh Yogi, visitou seu ashram (comunidade religiosa) na Índia para aprender meditação e usou mantras em suas canções. No final dos anos 90, foi a vez do pêndulo oscilar para o lado do corpo. A cantora Madonna estampou capas de revistas com formas enxutas, obtidas com uma modalidade de ioga que virou moda nas academias, a ashtanga. Os alunos queriam músculos bem torneados. E só.
Nos últimos dez anos, no embalo de estudos científicos que mostram os efeitos da ioga sobre o cérebro e o organismo, a prática se tornou menos do que uma filosofia e mais do que uma atividade física. Encontrou um novo centro entre Beatles e Madonna. “Hoje, os praticantes não estão em uma busca espiritual nem querem apenas um corpo perfeito”, diz Shakti Leal, coordenadora do Espaço Nirvana, estúdio de ioga no Rio de Janeiro. “Eles querem o bem-estar da mente.” O componente espiritual da ioga se transmutou no Ocidente em satisfação. “Com a separação entre ciência e religião em nossa sociedade, cuidar do corpo e da mente ganhou um significado semelhante ao de cuidar do espírito”, afirma o antropólogo Silas Guerriero, pesquisador de ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
A ciência começa a explicar por que praticantes de ioga narram sensações de conforto físico e mental. Os pesquisadores submeteram adeptos a exames que medem a atividade elétrica do cérebro e descobriram que a calma e a clareza de ideias relatadas pelos alunos se devem aos efeitos da ioga sobre a atividade dos neurônios. Ao centrar a atenção em nossa respiração e nos mantras, mandamos para o cérebro a mensagem de que ele pode desacelerar. Com isso, aumentam as ondas cerebrais do tipo alfa, associadas ao estado de atenção relaxada. É o suficiente para manter nosso raciocínio afiado, mas sem aumentar a ansiedade. Em novembro, cientistas americanos anunciaram a descoberta de mais um mecanismo de atuação da ioga sobre o bem-estar. A equipe do neurologista Chris Streeter, da Escola de Medicina da Universidade Boston, constatou que o cérebro de praticantes tinha quantidade maior de uma substância relacionada a baixos níveis de ansiedade. A divulgação desse tipo de estudo teve um papel importante para consolidar a ioga como algo mais do que uma crença ou um simples exercício. “As pesquisas s estão ajudando a desmistificar a ioga”, diz o psicofisiologista Marcello Árias Dias Danucalov, que estuda os efeitos da prática sobre o cérebro. “As pessoas entenderam que a ioga é autoconhecimento sem misticismo.”

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